quinta-feira, 28 de agosto de 2014

.recombinar.

abri as gavetas. rascunhos, papéis amassados, fotografias, pequenas histórias escritas à mão, enredos inacabados. tinha até alguns fôlegos e suspiros presos alí. tudo meio úmido, como se chovesse dentro do móvel enquanto todos dormiam. pedaços que não deveriam estar lá abandonados, esperando por algum sentido. separei, ordenei, cataloguei e depois estendi no varal pra secar. as coisas diminiam de tamanho enquanto o sol fazia seu papel. memórias encolhem com o vento, deduzi. fita adesiva nas mãos, um minucioso trabalho de colagem. peça por peça, encontrar suas combinações. quando era certo, naturalmente as coisas se encaixavam, entrelaçadas, como se o lugar delas fosse alí. era um trabalho exaustivo, sem dormir passei meses recombinando e consertando os retalhos, quando de repente estava alí. um grande mural que finalmente fazia sentido. não havia mais motivo para guardá-lo de volta nas gavetas úmidas. emoldurei meu trabalho, pendurei na parede com orgulho, para que todos vejam, para que eu não me esqueça. pedaços do melhor que já fui ou foram por mim. sentado no chão, peguei o caderno e comecei a escrever. já tinha espaço de novo pra guardar outros papéis. dessa vez inéditos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário